sexta-feira, maio 26, 2006

OPINIÃO

Permanente: imutável, contínuo, ininterrupto. Recorri ao dicionário para confirmar se esta palavra teria, para todos, o mesmo significado que sempre lhe atribuí. Parece que sim…

Por uma questão de números, o Governo encerra o SAP de Silves. A Administração Regional de Saúde (ARS) sabe quantos doentes atende o SAP. Mas não quer saber quem são esses doentes.

A ARS sabe a distância entre Silves e Portimão. Mas não quer saber da distância, nem do tempo que vai de um monte em São Marcos a Portimão. Como dizia um antigo Primeiro-Ministro, é só fazer as contas…

Serviços de Atendimento Permanente vão passar a encerrar durante a noite ou reduzir o seu horário, outros vão continuar a funcionar até às 20 ou 22 horas ou mesmo 24 horas por dia.

Acho piada a este eufemismo dos horários dos SAP. Esta forma de contornar a realidade, tornando-a menos desagradável. Um “SAP” que não funciona 24 horas é um Serviço de Atendimento qualquer mas não é um SAP.

Confesso que, porque verdadeiramente não me interessa, não me dei ao trabalho de puxar pela memória (ou pela Internet) para lembrar quem foi o Ministro que criou os SAP.

Para ser politicamente correcto, a um Socialista deixava uma crítica severa e culpava-o de todos os males subsequentes, a um Social-democrata deixava a mesma crítica e depois acrescentava que a militância partidária não limitava a minha independência e espírito crítico.

Prefiro ser politicamente verdadeiro. O pecado original está na promessa da prestação de um Serviço PERMANENTE às populações.

Na miragem de um País com médicos em número suficiente para assegurar cuidados de saúde permanentes por todo o lado. Na miragem de um Estado com situação financeira que lhe permitisse fazer face à despesa que esta Permanência implica.

A classe política vem sofrendo da síndrome do vendedor de ilusões. Vai vendendo coisas como os Serviços de Atendimento Permanente, criando expectativas que facilmente defrauda, para no dia seguinte voltar à carga com mais promessas e mais medidas de nomes pomposos.

Com o Governo do Eng. Sócrates, atingimos outro patamar desta escalada de ilusionismo político.
Na Saúde, prometeu-se a reestruturação das Urgências.

No Algarve, o que foi feito? Encerrou o SAP de Silves.

Alguém notou alguma outra alteração significativa nos Centros de Saúde e Hospitais? Apenas uma: o novo Centro de Saúde de Portimão, com concurso finalizado, visto do Tribunal de Contas e verba orçamentada, está, por vontade da ARS, em banho-maria.

Prometia-se, como contrapartida ao encerramento dos SAP, o reforço do INEM. Também aqui nada mudou no Algarve. Até a construção das instalações da Delegação do INEM caiu no esquecimento.

Maternidades são encerradas, o critério principal é um número. A reforma da Saúde Materno-Infantil implica o encerramento de Maternidades e a abertura ou renovação de outras, segundo critérios que passam pela qualidade da assistência, pela rentabilização de meios humanos e técnicos, pelo principio da igualdade entre o litoral e o interior.

Apresenta-se, como novidade, a criação da Rede de Cuidados Continuados Integrados. Porém, dois anos antes, foi criada a Rede de Cuidados Continuados.

Para que a mudança prometida se concretize, e não se fique por uma palavra a mais, é urgente a regulamentação deste diploma. Só então podemos saber se o empenho posto na mediatização tem correspondência prática.

Por fim, o Hospital Central. Posto em causa, prometido, dispensado, de novo prometido, em episódios sucessivos, agora submetido à apreciação de uma Comissão que concorda com a sua construção, mas… ninguém sabe para quando, nem como.

E assim passou um ano. Um ano de ilusão permanente.

*médico, vereador da Câmara de Portimão pelo PSD in Barlavento

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