quinta-feira, novembro 04, 2004

Entrevista a Mendes Bota

"Comparar a vida com a inexistência"



Mendes Bota não tem dúvidas: quando era presidente da Distrital havia debate e tomadas de posição. A actual "inexistência" do PSD/Algarve só não é clara na "lógica de sobrevivência de alguns - poucos - dos actuais beneficiários do poder"


Região Sul (RS) - Tem tido um discurso algo cáustico em relação ao actual estado das coisas no PSD/Algarve. Uma das críticas prende-se com uma alegada subserviência ao Poder Central. A sua candidatura é contra a direcção nacional do Partido?

Mendes Bota (MB): A simples razão de existir da minha candidatura é a evidência de um profundo mal-estar das bases do Partido no Algarve. Quando uma maioria esmagadora de responsáveis pelas estruturas concelhias, sem contar com um número significativo de autarcas e militantes em geral, fazem um balanço negativo de um mandato e decidem, por iniciativa própria, avançar para uma alternativa, convidando-me para encabeçar esse movimento, é porque se chegou à conclusão de que algo tem de mudar, para conferir ao PSD/Algarve uma vitalidade perdida nos últimos anos. A minha candidatura não é contra ninguém, nem contra a direcção nacional do PSD, e muito menos contra o seu líder. É uma candidatura a favor do Algarve e em defesa dos algarvios. E por isso penso que a solidariedade dentro do Partido não funciona apenas de baixo para cima, mas também deve funcionar de cima para baixo. É uma solidariedade em dois sentidos. Tenho uma relação normal e antiga com Santana Lopes e com a maioria dos ministros do actual e do anterior Governo. E tenho a certeza de que, após o 20 de Novembro, todos iremos colaborar para enfrentarmos em conjunto os desafios eleitorais que se avizinham.

RS - Isabel Soares disse ao nosso jornal que, porventura, têm os mesmos objectivos, simplesmente divergem nos métodos e nas equipas. Concorda?

MB - Isso é uma verdade "palissiana". É óbvio que iremos divergir nas equipas, apesar de não serem ainda conhecidas, pela simples razão de que ninguém se poderá candidatar pelas duas ao mesmo tempo. Quanto aos métodos, também é simples. É só comparar o que foi o PSD/Algarve, pleno de actividade, debate, reflexão e tomadas de posição política durante os nove anos em que fui o presidente da Comissão Política Distrital (1985-2000 e 1995-1999), com o que foi o PSD durante os últimos anos. Ou seja, é comparar a vida com a inexistência. E isso está muito claro no espírito dos militantes de base. Só não está na lógica de sobrevivência de alguns - poucos - dos actuais beneficiários do poder e das suas mordomias.

"Imoral"

RS - Tem insistido em tornar público quem o apoia, ao mesmo tempo que denuncia a existência de "aliciamentos, pressões" e até "chantagens" neste processo eleitoral. O que é que tem medo que aconteça?

MB - Não tenho medo de nada. Tenho repúdio por determinado tipo de métodos de abordagem aos militantes, no sentido de os levar a inverter uma determinada opção de voto. Primeiro, não é aceitável que haja interferências de membros da direcção nacional do PSD ou de alguns membros do Governo, num processo eleitoral que só diz respeito aos militantes do Algarve. Pela posição que ocupam, têm um dever de absoluta neutralidade. Segundo, é imoral que se façam determinadas abordagens a pessoas, que mexem com a sua vida pessoal ou profissional, apenas nesta antevéspera eleitoral, quando o desprezo e o esquecimento foram a regra durante os últimos anos.

RS - Acha realmente que os resultados das eleições dos representantes das concelhias ao Congresso do PSD podem ser extrapoladas para as da liderança ao PSD/Algarve?

MB - Desde que deixei funções dirigentes no Partido, há cinco anos atrás, que o PSD/Algarve deixou de ter presença marcante nos Congressos do PSD. Desde o tempo de José Vitorino, e numa tradição a que dei sempre sequência, que o PSD/Algarve sempre apresentou a sua própria moção de estratégia e teve intervenções que deixaram marca. Nos últimos cinco anos, essa tradição foi quebrada, e nada de relevante assinalou a passagem dos Delegados do Algarve pelos Congressos do PSD, à excepção das horríveis negociações de bastidor em luta corpo a corpo para conquistar este ou aquele lugarzinho na Comissão Política Nacional ou no Conselho Nacional. Veja-se que, a direcção cessante do PSD/Algarve aponta como relevante no seu balanço de actividades o facto de ter conseguido meter cinco membros no Conselho Nacional e um(a) na Comissão Política Nacional. E depois? Em 1999, comigo, já tinha exactamente esse número de lugares, portanto não há novidade nenhuma, nem é nenhum feito extraordinário. Ademais, quem é que conhece esses doutos conselheiros? Acaso alguém numa rua do Algarve conhece os seus nomes, ou as brilhantes intervenções que fizeram? Em prol de quê e de quem? Isso é absolutamente irrelevante. Quanto ao movimento "A Força do Algarve", o que fizemos foi organizarmo-nos de forma que candidatos a Delegados das diferentes Secções concelhias, afectos ao nosso programa, fossem eleitos. E, facto dos factos, conseguimos eleger 65% do total dos eleitos. Por razões diversas, posso afirmar hoje que já não somos apenas 65%. Dos 35 militantes do Algarve, que irão estar presentes em Barcelos no próximo dia 12 de Novembro, 25 são afectos à "Força do Algarve", ou seja, 71%. Isto não significa 71% dos votos no dia 20 de Novembro. Podem ser mais, ou podem ser menos. Mas lá que candeia que vai à frente alumia duas vezes, é uma verdade universal.

Santana é réu e PSD Algarve está 'afónico'

RS - Fez um apelo ao primeiro-ministro e presidente do PSD para que mantivesse afastado do processo eleitoral "alguns dirigentes nacionais e titulares de cargos políticos" que, actuando nessa condição, estariam a "exercer pressões inaceitáveis sobre autarcas e dirigentes do Algarve, em favor de uma outra candidatura". Pedro Santana Lopes já lhe respondeu?

MB - Não respondeu, nem tinha que responder. Não lhe foi enviado nenhum questionário. Foi-lhe comunicada uma tomada de posição.

RS - No anúncio da sua candidatura disse que o Governo merecia um período de "estado de graça". Entretanto, já houve o anúncio da putativa falta de água no Algarve; a introdução de portagens na Via do Infante parece estar confirmada; e o Orçamento de Estado prevê a introdução de uma taxa municipal para o alojamento nas unidades hoteleiras. O Governo continua a merecer o benefício da dúvida?

MB - Santana Lopes é uma vítima, não é o réu. Não foi ele que desejou ser primeiro-ministro, nem adivinhava que teria de assumir a liderança do partido nas condições em que o fez. O que eu disse, e reafirmo, é que Santana Lopes não mereceu de ninguém nem um segundo de estado de graça, como se costuma conceder a qualquer Governo. Enfrentou um autêntico pelotão de fuzilamento, com zero por cento de margem de tolerância. Eu próprio saí em defesa dele, num artigo publicado no Semanário há três meses, intitulado "Chovem Pedras em Sant'Anna". Porque não gosto desta atitude de intolerância, seja dentro ou fora do PSD, nem dos comentadores nem da oposição. E foi uma defesa sincera, pois nessa altura nem me passava pela cabeça estar na situação em que estou hoje. Hoje, já não é tempo de estado de graça. Tem havido medidas penalizadoras para o Algarve e a sua economia, como as que citou, e o que lamento é que o PSD/Algarve não tenha sido ouvido nem achado por parte de quem as tomou. E que tenha reagido com o silêncio. Nem sequer eleva a voz para defender o Governo.

RS - Pretende intervir no Congresso do PSD e, em caso afirmativo, qual é mensagem que quer passar para o Partido, nomeadamente em relação ao Algarve e às medidas que têm sido tomadas, ao arrepio da vontade generalizada dos algarvios?

MB - É exactamente isso que pretendo transmitir ao Congresso e à liderança do Partido. Falar dos problemas que afligem o Algarve, falar das dores do nosso eleitorado, da classe média em geral, dar sugestões de medidas, contribuir para que dali saia uma liderança reforçada, não por um ritual de entronização, nem por um clamor evangélico de fanatismo seguidor, mas pela força da palavra, das ideias, das propostas para o País e das convicções por que se devem pautar os verdadeiros social-democratas.

in Região sul

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